Sobre o prodigiosismo em tempos de belpesceanisticidade

… não é apenas mais um texto sobre a Bel Pesce.

mozart criança prodígio
Sinta o desprezo com que o Mozart criança prodígio olha pra você. (Reprodução)

 

Se você é minimamente conectado a pessoas jovens empreendedoras, engajadas com um estilo de vida startupista e cheias de ideias de negócio sensacionais, então já deve ter ouvido falar da Bel Pesce, ou “a menina do Vale”, como ela intitula a si mesma e também seu primeiro livro. Resumindo, a guria é uma pessoa prodígio, dessas do tipo empreendedora, que com 20 e poucos anos já tava formada no MIT, com experiência na Microsoft, Google, Facebook, Nasa, Nerv e todo o resto da lista da Forbes. Se você é do ~meio~, sabe porque eu estou falando dela, mas se não faz ideia, vou explicar. Dois acontecimentos jogaram a garota no radar da comunidade problematizadora ltda brasileira nessas últimas semanas: ela fez parte de uma tentativa fracassada de campanha crowdfunding para uma hamburgueria em que os ex-futuros donos não têm cara nenhuma de quem precisa de funding whatsoever e um textão do IzzyNobre desconstruindo cada vírgula do currículo dela, o que pôs em xeque muitos feitos e supostos cargos que a menina teria ocupado. A Bel até fez um post enorme essa semana, mostrando fotos de reuniões, diplomas, print de emails de contratação, recibo de hotel e o diabo na terra do sol pra provar que sim, ela trabalhou aqui, ali e acolá.

Apesar do currículo aparentemente verdadeiro – com ressalvas – e tals, na verdade, o principal produto da Bel são suas palestras de empreendedorismo, que tem um viés todo motivacional, próprio dessa galera, da turma do “você consegue, basta acreditar”, do tipo que tem um adesivo no banheiro escrito “o que você vai fazer hoje para te deixar mais perto do seu sonho?”. E é até meio circular, meio metalinguístico isso, né? Porque às vezes o maior empreendimento da galera é… saber falar bem sobre como alcançar o seu empreendimento. Dá um nó. Mas, cá entre nós e os nós, a Bel e muitos outros até que vão além. De qualquer forma, vamos logo ao assunto do post, que é sobre o fato de eu ter ficado FELIZ por ter visto a desconstrução da imagem da guria. Eu e meio mundo. Afinal, não existe nada mais irritante do que essa galera prodígio – é difícil aceitar que não varia pro feminino – fazendo a autoajuda dos business. Considere este post um manifesto.

 xadrez contra o mundo
Quem é você na foto do Samuel Reshevsky derrotando vários mestres de xadrez na França em 1920? (Reprodução)

 

Antes de qualquer coisa, acho que deveria ser proibido por lei federal permitir palestrantes motivacionais de qualquer categoria e assunto com menos de 60 anos. Porque é aquilo, dá margem pra aparecer a mina com 24 anos vendendo um currículo impossível para 99,99% da população. Que tenha 67 pelo menos, pra gente poder pelo menos sonhar que “ainda dá” ou algo assim. Isso foi só um adendo. Mas vamos aos prodígios.

Vocês com certeza se lembram no colégio, quando alguém ia ensinar alguma fórmula de física. O professor escrevia “F=m.a” lá na lousa e falava “Isaac Newton foi um cientista, físico, matemático, astrônomo, alquimista, filósofo natural e teólogo”. “Leibniz foi um filósofo, cientista, matemático, diplomata e bibliotecário”. Na dúvida, tenha a certeza de que essa galera já era tudo isso antes dos 18 anos. É claro que tem uns exageros. Assim, sinceramente, não manjo muito de confiabilidade histórica, mas duvido com todo o meu ceticismo que Mozart compunha algo de verdade com 3 anos. Com 3 anos a gente tá levando dedo da mãe na cara e escutando “não pode comer cocô!”, daí a história vem falar que ele já tava sentadinho num piano escrevendo partitura? Me poupe. Então dessa galera eu nem reclamo, porque nem tem muito o que fazer a não ser duvidar ou colocar oferendas aos pés das suas estátuas. Na boa, uma amiga minha faz mestrado sobre um truta que tem a seguinte descrição no Wikipedia: “Capitão Sir Richard Francis Burton foi um escritor, tradutor, linguista, geógrafo, poeta, antropólogo, orientalista, erudito, espadachim, explorador, agente secreto e diplomata britânico”. ESPADACHIM. AGENTE SECRETO. Na boa. Tudo isso aos 22 anos de idade! Essa última parte é mentira. Mas poderia não ser. O fato é que tanto faz.

Keith Flint do Prodigy
Keith Flint, mais um prodígio. Com 7 anos foi criador da incubadora de startups “Firestarter”. (Reprodução)

 

Por isso, só consigo reclamar de verdade verdadeira dos prodígios “reais” do nosso dia a dia. Aquele cara na faculdade que só tirava de 9,7 pra cima, amigo de todo mundo, vai nas baladas, não falta na aula, pega todo mundo, capitão do time de futebol, professor de yoga, foi o primeiro a ter bolsa de iniciação, fez mochilão na Europa e ainda volta com presente pra todo mundo da sala. Aquela mina do trabalho que é professora de muay thai numa ONG, faz MBA à noite, teatro no sábado, usa Tinder todo dia, viaja pra praia todo fim de semana, manja das séries, lê todos os livros, entrega os melhores relatórios, Excel avançado, com VBA, já trabalhou na Tailândia e recebe proposta de emprego foda todo dia. Essa gentinha.

Pra tentar explicar o que eu sentia quando via essa galera, fui atrás da origem da expressão “esfregar na cara”, mas infelizmente não encontrei. E me recuso a perguntar pros dois aí de cima, que provavelmente não apenas sabem, como já escreveram um artigo a respeito da etimologia das expressões urbanas brasileiras. Mas a treta toda é essa. Essa lambança que a sociedade faz ao esfregar o sucesso alheio na nossa cara. Aí é claro que a gente fica mais confortável quando alguém escorrega lá de cima. Mas também não estou sendo ingênuo aqui de acreditar na perfeição. Provavelmente o capitão do time de futebol deve chorar no banheiro, e a mina do Excel com VBA deve, sei lá, ter pé torto. Acredito na teoria dos pontos de personagem – prelúdio de um texto futuro.

bel pesce garota prodígia
Bel Pesce, a mulher prodígia. (Reprodução)

 

Foi mal, Bel. Você até que é legal e manja dos paranauê, desculpa por eu ter ficado feliz pelo seu currículo ter sujado um pouco. Talvez se você sair um pouco do palco e se jogar num projeto realmente inovador. Tira umas duas ou três linhas da sua biografia no site. Sei lá, troca uma daquelas fotos sorridentes e bota uma de cara triste ou algum pudim feio que você fez. Não sei. Mas oh, como meu pedido de desculpas, vou parar de pejorativar o termo prodígio, que por sinal é uma merda não varia pro feminino. Você é uma mulher prodígia, Bel.
Mas eu sou mais a gente que é gente que nem a gente.
Menos Bach e mais Zé.
Já é.

Daniel Ayub tem 19 anos, é físico, matemático, estatístico, programador, neologista, escritor, blogueiro, social media, publicitário, gestor de projetos, guitarrista, cantor, pensador, aventureiro, crítico de doces e enxadrista.

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